Então

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tárcio Costa - Cordel


Valores
Foi numa registradora
Em conversa informal
Que a moeda de um centavo
E uma nota de real
Falavam de suas vidas
E como eram divididas
Frente ao abismo social

A moeda boquiaberta
Ouvia a nota contar
Quão bela era sua vida
Sempre a se valorizar
No bolso dos abastados
Grã-finsos afortunados
Em bancos a lhe guardar

E não menos espantada
Ficava a nota graúda
Ouvindo a pífia rodela
Toda carente de ajuda
Mostrando a situação
Pois quem lhe tinha na mão
Sofria pobreza aguda:

- Duvido que isso exista!
Dizia o papel ao metal:
-Temos estabilidade
E equilibrio cambial
Nessa nova econômia
Valho mais do que eu valia
Do que reclama afinal?

Responde a moeda então:
- A coisa em baixo tá feia
estamos como mosquitos
presos grudados na teia
Quem me possui só lamenta
Sabe Deus como se aguenta
Vivendo nessa perreia!

- Mas que pessimismo é esse?
Retruca a nota gabosa:
- A vida nesse país
É coisa maravilhosa
Pois não temos furacões
E quem investe em ações
Leva vida cor de rosa!

A moedinha coitada
Tenta então argumentar:
- Eu sei valoroso amigo
Do quanto podes comprar
Mas mesmo juntando a mim
Outras moedas enfim
Ninguém posso alimentar!

E a nota real exclama:
- E Deus não é brasileiro?
Ele mesmo quis assim
É assim no mundo inteiro
Existe o muito e o pouco
Uns nascem para ser troco
Outros lucro de banqueiro!

A moedinha assustada
Calou-se de supetão
Deixando o rico dinheiro
Continuar sua esplanação
E com discurso apurado
Parecendo um deputado
A nota revela então:

- Moeda minha moedinha
Sofro com tua tristeza
Darei pra ti a receita
O segredo da nobreza
Preste muita atenção
Livrar-se da situação
Exige muita destreza...

Tenha amigos influentes
Mantenha a boca fechada
Aceite qualquer proposta
Que lhe for apresentada
Procure logo um doleiro
Viage para o estrangeiro
Numa conta de fachada...

Em paraisos fiscais
Valores não se repara
Nem mesmo a proviniência
Isso então é coisa rara
Pra deixar de ser merreca
Esconda-se até em cueca
Perca a vergonha na cara...

Deixando de ser moedinha
Torna-se-a capital
Verá crescer teu sucesso
No distrito federal
Lá meu amigo eu bem sei
Serás assim como um rei
Terás poder sem igual...

Entenda o que lhe digo
E torne-se valoroso
Conheça as cartas do jogo
Todo o esquema criminoso
Aceitando a realidade
No país da impunidade
Não se pode ser piedoso!

Eis que mergulhada em lágrimas
Tentando justificar
O centavo emocionado
Tenta a nota retrucar:
_Tem de haver outra saída
Não acredito que essa vida
Pra sempre assim vá ficar!

O assunto é interrompido
Quando os dois de uma só vez
São retirados da caixa
Para o bolso de um burguês
E a moeda religiosa
Diz pra nota toda prosa
Que ali milagre se fez:

- Veja meu caro real
Parece até brincadeira
Mas dividimos agora
o espaço dessa carteira
hoje tornei-me alguém
creio que um dia também
toda nação brasileira

Mas alegria de pobre
Por certo não dura nada
E a moeda dentre todas
Foi por fim utilizada
Pra da sola do sapato
Retirar côco de gato
E no bueiro foi jogada

Mediante a cena bizarra
Diz a nota um tanto fria:
- A pobre agora entendeu
O mundo faz de valia
A quem cede a seus engodos,
Pois o sol nasceu pra todos
Mas sombra se negocia.

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